Para Lula, chapa com Alckmin é melhor estratégia contra Moro

Ana Nascimento/ Agência Brasil

Em reservado, o ex-presidente tem alertado a petistas próximos de que 3ª via encontrou em Moro um caminho viável, e é preciso um “antídoto”

Apesar de enfrentar resistências de alas mais à esquerda do PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato do partido à Presidência da República, tem defendido diante de interlocutores próximos uma possível chapa tendo como vice o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (de saída do PSDB). Para o petista, a composição com o antigo rival é a melhor estratégia para enfrentar quem ele vê como potencial adversário de peso em 2022: o ex-juiz federal e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro (Podemos).

“O Lula quer muito”, contou um petista muito ligado ao ex-presidente, que pediu reserva. “Lula acha que, de fato, nosso adversário principal vai ser o Moro, e, cada vez mais, isso está evidente. A terceira via, enfim, encontrou o seu nome, depois de muita batalha”, avaliou o petista ao Metrópoles.

Entre pessoas próximas a Lula, Alckmin já tem sido chamado de “antídoto” contra um provável crescimento de Moro entre setores da elite financeira brasileira, insatisfeitos com o presidente Jair Bolsonaro (PL), que pretende disputar a reeleição.

Conversas

Ana Nascimento/ Agência Brasil

No último encontro de Lula com Alckmin, na sexta-feira (3/12), o ex-presidente teria reafirmado ao ex-governador o desejo de formar a chapa, idealizada em julho deste ano em uma conversa entre os dois, ocorrida na casa do ex-deputado e ex-secretário de Educação de São Paulo Gabriel Chalita.

Entre julho e dezembro, Lula e Alckmin mantiveram conversas pelo telefone. O encontro da semana passada ocorreu após o resultado das prévias do PSDB, que decidiu pelo lançamento do atual governador paulista, João Doria, ao Planalto e consolidou a decisão de Alckmin de deixar o ninho tucano.

A direção do partido evita confirmar a existência de um convite: “Houve encontro, mas ainda não há negociação sobre essa questão da vice”, disse ao Metrópoles a presidente do partido, Gleisi Hoffmann (PR).

“O nome do Alckmin ganhou um impulso grande pela imprensa e por movimentos muito estimulados por São Paulo, envolvendo as eleições para governador”, minimizou.

“Alckmin é candidato [ao governo de São Paulo], tem o Márcio França (PSB) e tem o Fernando Haddad (PT). Acabou que, estimulado por esse movimento e, talvez para acertar uma situação de disputa em São Paulo, essa história ganhou vida própria”, destacou Hoffmann.

Na visão de outro petista histórico, também sob condição de anonimato, a negociação avançou, mas as condições ainda precisam ser dadas e analisadas pelo próprio Alckmin, inclusive com a definição de a qual legenda ele se filiará.

“É bobagem dizer que não existe, mas é uma coisa que ainda está em curso. Pode dar certo, pode não dar. Ainda é preciso ver em que condições isso irá acontecer. Em qual partido?”, disse outro petista do círculo de Lula.

Apostas

Rafaela Felicciano/Metrópoles

A possibilidade de Moro superar Bolsonaro e ser o adversário mais competitivo de Lula em 2022 soa bastante plausível dentro do PT. O próprio ex-presidente acredita que Bolsonaro deverá manter uma faixa do eleitorado, mas que entrará em dificuldades ao longo da campanha.

A aposta é que o atual mandatário conte com alianças com o PP, comandado pelo atual presidente da Câmara, Arthur Lira (AL), e pelo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PI).

Já a candidatura de Ciro Gomes (PDT-CE) é vista com reservas, principalmente pelo isolamento que experimenta hoje o PDT, distante da esquerda e também dos nomes da terceira via. Neste caso, integrantes da terceira via consideram que a candidatura de Ciro é importante para enfraquecer Lula, levando parte do eleitorado de centro-esquerda.

A candidatura de Moro, que marcou em torno de 8% das intenções de votos nas últimas pesquisas, é vista também no grupo nem-nem (nem Bolsonaro nem Lula) como a de maior potencial para rivalizar com Lula.

É neste contexto que cresce entre os petistas a tese de que é preciso “ampliar para o centro” e tentar criar um flanco no setor tido como mais conservador, do ponto de vista político. É essa tarefa que Alckmin teria que desempenhar.

Quando ao desfecho do namoro entre Lula e Alckmin, todos são unânimes em apontar que só ocorrerá no próximo ano. Os petistas mais otimistas falam em fevereiro ou março, lembrando a demora para a definição do candidato em 2018. Outros alegam o prazo máximo para o registro da chapa, ou seja, três meses antes da eleição.

Resistências

Michael Melo/Metrópoles

Ao mesmo tempo que paulistas mais ligados ao ex-prefeito Fernando Haddad se mostram entusiasmados com estratégia, está também em São Paulo a maior resistência à chapa Lula/Alckmin. Alguns petistas estiveram na linha de frente da oposição a Alckmin ou a governos tucanos em São Paulo e consideram indigesta a junção de Lula e do ex-governador em uma chapa.

Uma das vozes divergentes é do ex-deputado José Genoino, petista histórico e muito respeitado na sigla. “Eu acho que essa discussão está começando errada”, reclamou.

    “O namoro está errado. A paquera tinha que ter começado pelo programa.”

O petista disse ainda não concordar com a ideia predominante de ter que “levar o PT para o centro da política”. “Sou contra esse movimento de levar o PT para o centro. Acho que o Alckmin foi o principal líder do PSDB em São Paulo. Não foi o Montoro (Franco Montoro) nem o Covas (Mário Covas). Então, acho que é muito difícil se ter uma unidade básica de programa para tê-lo como integrante da chapa”, argumentou.

“Temos que solucionar a crise como um problema econômico, e eles não estão dispostos a abandonar o modelo econômico liberal, com privatizações, teto de gastos, Banco Central independente, e muitas outras coisas”, argumentou Genoino ao Metrópoles.

Além dele, são resistentes à ideia petistas como Rui Falcão e Valter Pomar.

Na imagem colorida, um homem está posicionado no centro. Ele usa blusa azul e relógio preto.

Fonte: Luciana Lima/Metrópoles

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